Muita gente me pergunta… “é verdade que você é ateu?”. E eu respondo… “Sim, e por um número de razões"”. Meu ateísmo foi algo gradual e natural, que aconteceu ao longo de vários anos. Não, eu não sou ateu desde criança. Mas, para mim, essa decisão foi simples de ser tomada, e, parece que sempre esteve pronta para acontecer.
Minha família é bem liberal, e hoje vejo que não fosse por isso, talvez não mudado de opinião tão cedo na minha vida. Fui criado como um cristão não praticante, nunca fiz catequese/crisma, e isso me incomodava.
Passei boa parte da minha infância em uma cidade pequena, onde boa parte dos meus colegas eram católicos. Todos frequentavam as aulas de catequese… e me perguntava porque eu não ia. Nunca tinha parado pra pensar sobre isso, e para mim, não era nada difícil. A resposta era simples. Minha mãe nunca foi uma católica fervorosa, então não fazia sentido me criar dessa maneira.
Ao longo da minha infância, não podia passar um dia sem rezar. Toda noite, deitava na cama, e a primeira coisa que eu fazia, era respirar fundo, rezar um “Santo Anjo”, uma “Ave Maria”, e um “Pai Nosso”. Depois… parava e pedia algo que eu queria que acontecesse e agradecia o meu dia. Todas minhas noites eram assim, e nas que não eram, pedia desculpas na noite seguinte por não ter rezado o suficiente.
Com o tempo isso perdeu a importância. Acho que foi natural. Talvez os monstros debaixo da cama não incomodassem mais no escuro, e eu não precisasse mais do “Santo” anjo da guarda. As rezas caíram gradualmente. Uma a uma. Até que um dia me dei conta que restava apenas um pai nosso por noite. Mas me sentia da mesma maneira. Nenhuma culpa, nenhum perdão. A partir daquele momento parecia ser sentido fazer cinco minutos de preces antes de dormir. Então comecei a pensar que deus me atenderia da mesma maneira, já que ele sabia o que pensava, logo, concordaria comigo.
Com uns doze anos descobri um outro “eu”. Comecei a ficar curioso sobre as coisas, como todo mundo fica. Ler cada vez mais sobre diversos assuntos. Desde história, até astronomia básica. Aí caiu a ficha. O mundo não era tão lindo como eu imaginava. Os livros de história não podiam ser mais cruéis. Os noticiários da noite pareciam mais reais. Comecei a descobrir todo uma história de guerras e injustiça, e comecei a me perguntar algumas coisas. Como o deus que desde a época das múltiplas rezas diárias podia ser tão injusto. Enquanto eu dormia em paz, o mundo caía a baixa, e outras pessoas, tão se não mais fiéis que eu morriam. Será que eu era mais importante que um mundo inteiro, ou era pura sorte?
Porque os papas mandavam exércitos para catequizar outros povos, e matar os infiéis. Porque os judeus e os muçulmanos guerreavam tanto? Qual a razão de múltiplos deuses, de múltiplos nomes e múltiplos povos?
Comecei a desconfiar de tudo. E aquele deus tão bom parecia ser tão injusto para mim. Aí esqueci o deus judaico-cristão. A partir daquele momento me tornara um Deísta (acreditava em algum ser superior, mas que não era nenhum das grandes religiões). Para mim, esse “Ser superior”, era apenas um, mas não o mesmo “revelado” para os escritores dos velhos manuscritos. Esse foi o começo de tudo.
A partir daí parte havia sido resolvida. Pronto, o deus que eu acreditava, não era nenhum das religiões que criavam guerra. Mas como explicar as injustiças, como explicar os avanços sobre as descobertas das ciências? Simples, deus (ou qualquer outro nome que ele tivesse, ou não) não tinha como corrigir ou intervir em questões humanas. Então para que ele nos criou em primeiro lugar, e porque toda a reza já que ela não tinha sentido algum?
Essas e mais uma séries de questões me levaram ao ateísmo¹ (descrença em deus (es), ou qualquer entidades sobrenaturais). Mas a maior delas ainda precisava ser respondida: “Como ser moral sem religião?”
Cheguei à conclusão que a “moralidade” que a religião propõem nada mais é do que falsa e/ou contraditória. Muito Contraditória. Não há como negar que certas partes das escrituras que dizem que se deve honrar pai e mãe, não se deve matar, que se deve respeitar os outros, que não devemos roubar etc..., está correta. Mas e o que falar das partes da bíblia em que se diz que se deve apedrejar e matar que crê em um deus diferente, ou do próprio deus que mata crianças inocentes? E disso está cheio na bíblia². Ou no alcorão.Ou em qualquer outra escritura religiosa. Por que? Para que as pessoas tenham medo, de não ir para o céu, de morrerem. Ou mesmo de serem castigadas aqui na Terra.
Não há sentido nisso. Somos morais não por causa de religião. Ou a única razão que não me faz sair e matar alguém é um medo de deus? Não, de maneira alguma. Não faço isso porque sei que é errado e não porque me foi dito, mas porque é errado matar outras pessoas. Não é certo maltratar outras pessoas. Somos morais por natureza. Os seres humanos são animais sociais. E por isso cuidam de seus filhos e parentes, ajudam outros que precisam, são bons com as outras pessoas. E não há necessidade de temer alguém, ou o inferno interno para aprender isso. Moralidade não vem de religião, nem de deus, vem de dentro de nós.
Depois de descobrir isso tudo, acreditar em um deus (nada superior) passou a ser desnecessário para mim. Eu descobri que era mais bondoso e moral que qualquer um deus das grandes religiões. E que é muito mais belo apreciar a vida sem ter medo, podendo ver as coisas como elas são sem viseiras que me impeçam. Aprender sobre astronomia, como o universo surgiu, como a vida evolui, sem ter medo de contrariar um livro de três mil anos. Poder ser feliz… e aproveitar a única vida que eu tenho de maneira plena e saudável, fazendo cada segundo valer a pena. Por isso eu sou ateu, espero ter respondido a pergunta.
Escrito por: jpmna
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* As passagens do texto apresentam deus escrito com letra minúscula, pois a escrita com letra maiúscula é adota como convenção por cristãos para relacionar-se ao deus dessa determinada religião, Jeová/Jesus/Espírito Santo, de forma a dizer que só há um “deus”. Mas como cito deus com caráter mitológico, pode indicar qualquer entidade superior, desde Zeus até Alá (escritos com letras maiúsculas por serem nome próprio, assim como qualquer outro nome próprio na língua portuguesa).
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