Há um ano e nove meses não posto no blog, e sem nenhuma razão em especial para tal hiato. Talvez apenas por desleixo, ou pela soma de todas as mudanças que quase dois anos provocam. Algumas coisas mudam, outras não, como há de se esperar. Certas opiniões mantém-se as mesmas [pelas mesmas razões que se justificaram como válidas in the first place], outras mudam pela experiência, transformam-se e adquirem justificativas.
Mas as coisas simples [que antes pareciam imutáveis] foram mais notáveis. O almoço não é mais com a família, o colégio deu lugar ao cursinho. E a pacatice deu lugar a buzinas enfurecidas, pessoas com pressa e alguns metros a mais para chegar em casa [muitos, muitos a mais].
Resolvi escrever, não só porque sobrou-me tempo, mas também porque sempre fui dos mais observadores e nunca coloquei isso no papel. Sabe a mãe que ouvia o filho a contar histórias no almoço, ou o amigo que torce pelo silêncio meu [que reluta em acontecer] quando chego em casa.
Há umas semanas não almoçava no restarante que almocei boa parte do ano. Talvez para quebrar a rotina, ou para experimentar um buffet novo. Mas anyway. Será que todo mundo dá valor ao bom dia animado do cidadão parado em frente ao restaurante que avisa: “Amigo, pode passar”? Ou poder escolher quanto a encher o prato ou não, e logo ser atentido pra confirmar ao garçom a coca-cola zero de todos os dias? Aí já não sei. Mas sei que meu amigo garçom ficou feliz ao me ver novamente [alguém diria: clientes dão lucro, logo são valoizados]. Mas clientes sorriem, e sorriem ainda mais quando perdem o gelo do stress do meio-dia corrido. Seja a senhora que demora a achar as moedas na carteira para pagar a comanda, ou o trabalhor apressado que enche a marmita de feijão, arroz e bife.
Nesse mesmo restaurante, de algo me lembro. Um dia cheguei feliz. E estava. Nem sempre é assim, então há de se aproveitar. E aí não enchi o prato [Precisa explicar mais?]. Sentei. Lá estava o garçom meu chapa. Tudo normal por enquanto. Até ir servir-me. Restaurante vazio, e então não exitei: assoviava. E assoviava. Logo a senhora na fila da salada [que em meses não havia dito um sequer oi] sorriu e largou: “Feliz meu filho? Quem canta os males espanta.” Não sei se funcinou de fato espantar os meus males assoviando, mas o simples riso fez lembrar da minha vó a quilômetros de distância. Assim como lembrava de minha família aos domingos, vendo a família dos outros almoçando reunida, ou vendo o neto que almoçava todas as quartas com a vovó frequentadora do mesmo pacato restaurante. Resumindo: ao falar ela havia espantado os meus males. E eu os dela. Fair enough.
Voltando ao dia de hoje, sentei almoçar com a maior calmaria do mundo. Lasier falava no Jornal do Almoço, mas mesmo assim, não conseguia ouvir a TV. Era a hora de reflexão. De não só aproveitar a refeição única do regime, mas de também observar ao redor por coisas inusitadas. Como o ser conhecido que almoçava de frente para a parede. Talvez por recusa a observar ao redor, ou por tentar se isolar. Que grande ironia. Vai ver parte dos discursantes são assim. Já eu acho o contrário. Escolher almoçar fora não é só pra fugir do miojo e da solidão de casa, mas pra observar. As coisas simples. E em um ano foram tantas, que levaria um livro pra escrever tudo [como se alguém se importasse em ler, afinal… coisas simples não têm tanta importância].
Saindo do restaurante, paguei a conta. E lá estava o mesmo senhor de idade que me convidara a entrar no restaurante, dizendo dessa vez: “Obrigado amigo, um bom dia para o senhor.” E eu dizia o mesmo: “Um bom dia para o senhor”. Me pergunto quantos bom dias recebe alguém cuja ocupação é dar bom dia e boas vindas, mas o meu foi sincero.
Saía e via o sol de novo. Tinha que ligar pra casa. Para usar a descupa de pedir dinheiro para poder falar ao menos uns minutos [tentando reaver aquilo que durava uma hora durante o almoço]. O telefone lá na antiga cidade tocava, e no mesmo instante, alguém chegava perto. Um gurizinho. Bronzeado [de dar inveja a banhista ou frequentador de clínica] que chegava somente ao limite da gola da camiseta. E ele virou pra mim e falou: “Moço, não to te pedindo nada… só compra um cartão de natal.” Ele se contradizia, pois pedia algo. Mas não o que todos nós estamos acostumados a ouvir como pedidos. E eu bem apressado esperando atenderem o telefone, respondi: “Agora não, não tenho um trocado no bolso.” E ele, ao ouvir, tornou a falar o ensaiado: “Mas só é um real.”
Andei uns metros, do outro lado da linha, meu pai atendeu. E eu disse: já te ligo de volta, só um minuto. E voltei os vinte metros em direção ao gurizinho. Ele me olhava com cara de desentendio. Talvez pensara que eu voltava para onde teria surgido. Mas voltei e disse: “Te compro um. Tem trocado?” Ele, sem tibutear, puxou 35 centavos do bolso. Aí comprei dois cartões. E ele disse: pode escolher, como quem negociava, ao segurar os já pré-escolhidos dois cartões na mão direita. E enquanto se esforçava para não derrubar os outros dois da esquerda. Ele disse um obrigado e eu um tchau, como quem dava feliz natal ao anônimo que nunca mais tornaria a ver na vida.
Só fui descobrir os motivos extremamente cristãos dos cartões quando cheguei em casa. Mas já era de se esperar. No fim das contas, é tão difícil não é? Imprimir mensagens que foram usadas para justificar exploração durante dois milênios é bem mais fácil que dizer te amo, ou feliz natal. Mas de qualquer forma. Guardei os cartões. Talvez mande para alguém que se sinta feliz em ouvir tais palavras, sem lamentar o infortúnio que o que elas remontam causou. Esse post não é para esmagar a religião, porque já fiz isso antes. E não sei quando escrevo de novo. E esse desabafo fica aqui.
Voltando embora, vi mais uma coisa. Um menino com seus lá seis anos de idade que segurava o guarda-chuva o mais alto que podia para resguardar a mãe e a irmã recém-nascida do sol. E como ele sorria, feliz. De mão erguida o mais alto que podia, mochila nas costas e havaianas nos pés. Devia ir pra aula. E da mesma forma que a senhora havia lembrado minha avó no outro dia, isso lembrou meu irmão mais novo. E o mesmo protecionismo de irmão para irmão na infância. Do irmão que saiu fechar a casa e pediu ao irmão mais novo ir dormir, até a mãe voltar. Sem saber que ela limpava a despensa.
Aí chegava meu prédio. E o oi de todos os dias ao porteiro, que se debruçava num prato de comida enviado de casa, enquanto assistia o Globo Esporte. Como conheço tudo sobre futebol [/irony], sorri e me dirigi às escadas. Tinha uma idéia na cabeça: escrever. Escrever sem obrigação e com a única pretensão de relatar algumas coisas que acontecem em vinte minutos. Mas que fazem nos lembrar horas. Horas de outros tempos que não voltam mais. E é nisso que está a jóia em olhar ao redor. De ver que os problemas e as soluções são universais. De que o menino que vendia cartões poderia ser eu, e eu ele, num simples rodar de números de loteria.
Fingimos não ver os problemas dos outros [já temos os nossos] e somos assim. Felimente ou infelizmente [pra eles ou para nós]. De qualquer forma. Que ironia um ateu escrevendo sobre ser feliz sendo o mínimo de bom com o próximo, você deve dizer. E porque não? Quem disse que não devíamos ser assim? Ou porque alguém disse isso, que tem-se de engolir todo o pacote, de dogmas, preconceitos e mistificação? Fazer algo pelo simples fato de se sentir bem por fazê-lo é diferente de fazer por medo de descer a calabouços enfestados de bestas em uma próxima vida, ou pela preguiça de rezar dez ave-marias para justificá-lo. Enfim, combater a ideia infeliz do “é preciso acreditar para ser bom”, fica pra outro dia, como já havia dito.
Mas é isso. Como Roger Waters escrevera:
“Everything under the sun is in tune
But the sun is eclipsed by the moon”
"There is no dark side of the moon really.
Matter of fact it's all dark."
Às vezes coisas simples libertam essa barreira, e é aí que vemos o que está por trás do lado escuro [ou da lua totalente escura, como é concluído no fim] da lua: Tudo está alinhado debaixo do sol.
Feliz Solstício de inverno aos habitantes do hemisfério norte e de verão aos do sul. Afinal, foi disso que surgiaram as comemorações, já milenares, dessa época do ano [que agora são super conhecidas pelo pop star dos mitos que não precisa ser nomeado]. Ou se você ainda acha que simples boa vontade e sorrisos devem ser regrados por toques de ilusão e espíritos santos [pela promessa da eternidade monótona]: Feliz Natal. Não que eu não ame panetone, peru, chocolate e presentes.
E é isso.
texto ecrito por jpmna.



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